Um Convite ao Olhar

Ironias do Destino



 

Chega ao fim a tão esperada Copa do Mundo feita aqui, no nosso país. Apesar do nosso fraco desempenho dentro de campo, e dos escorregões fora dele, acho que a impressão foi positiva.

Quando falarmos da Copa daqui há alguns anos, lembraremos de grandes jogos, da alegria da torcida, das grandes atuações dos goleiros, dos 7x1 (infelizmente!) e dos 0x0 mais emocionantes que eu já assisti.

E como o futebol é irônico! Torcemos como nunca para quem nos humilhou só para não ver nosso maior rival festejar na nossa casa. Que 2018 chegue rápido! E que nesse intervalo surjam novos craques por estes campos... Por hora voltemos à realidade do Brasileirão!

 

Franciscos



 

No jogo entre Argentina e Suíça eu estava no estádio e fui involuntariamente apresentado a uma ‘espécie’ única de torcedor: o argentino. Sempre achei exagerada nossa rivalidade e até boba, afinal um país que tornou notáveis pessoas como Jorge Luís Borges, Júlio Cortazar, Mercedes Sosa, Ricardo Darín, Juan José Campanella e Pablo Trapero, entre outros artistas, só pode ser uma grande nação. E deve ser! Falo sem conhecimento de causa e sei que o que vi em Itaquera foi uma parte específica de seus nativos que talvez nunca tenham ouvido falar dos compatriotas que citei.

O fato é que eles são apaixonados, torcem como poucos e fazem a diferença para o seu time.  Ao perceber isso, naturalmente eu deveria me juntar a eles, pois só há qualidades em tudo isso, mas é aí que entra um pequeno detalhe: a tribo. Por mais globais que queiramos ser, pertencer à “pátria mãe gentil” ainda nos identifica.

Não é preciso ser um especialista em Melanie Klein para saber que a rivalidade entre as torcidas de futebol é motivada pela inveja e na contramão deste sentimento caminha a admiração. Por isso, a questão não é se Maradona é melhor que Pelé, mas sim a petulância deles cantarem isso aos berros dentro da minha casa!

Perto de onde eu estava sentado havia vários grupos de argentinos que após a vitória na prorrogação, se juntaram como se fossem os anfitriões. Chamou-me a atenção um deles, que exercia certa liderança sobre os outros e cuja camisa carregava o número 1(não era de goleiro) e o nome Francisco. A princípio acreditei que era o nome dele, mas logo em seguida me toquei que tratava-se de uma homenagem à vossa santidade, o Sumo Pontífice, o Papa.

Das oitavas de final até a finalíssima, fiquei verdadeiramente preocupado. Pois ao presenciar a soberba daquela torcida, não achei justo que fizessem a festa logo aqui. Ter o reforço de alguém que além de torcedor tem livre acesso com o "Todo Poderoso" aumentava ainda mais minha sensação de impotência.

Mas ainda bem que o futebol ainda é jogado no campo dos pobres mortais. Pois “nuestros hermanos” mereceram como nunca vencer esta final, mas prevaleceu a técnica dos nossos algozes alemães. Felizmente para mim, meus “amigos” Franciscos vão ter que esperar mais quatro anos para tentar alcançar o número de Copas que o Pelé sozinho já conquistou... E aí “decime qué se siente ahora”?

 

A Função da Tragédia

 


 

Após a histórica derrota para a Alemanha a Copa do Mundo ganhou novo significado para boa parte dos brasileiros. O clima de orgulho e otimismo criado sobre a “Copa das Copas” deu lugar a uma sensação de incompetência que há muito não sentíamos.

Ainda não conheci alguém que goste de perder, ainda mais com tamanho requinte de crueldade. Mas o que posso dizer para a turma que chora com o hino à capela é que não se desesperem! O David Luiz pode continuar sendo o seu herói nacional, aliás, ele jogará num time chamado Paris Saint German na próxima temporada e tem tudo para continuar brilhando.

Sim, há muito nossa seleção não encanta como na época do penta. Talvez se vocês acompanhassem um pouquinho mais o nosso esporte bretão, além do período festivo das Copas, veriam que a recente conquista das Confederações foi ilusória, nossos adversários derrotados naquela ocasião sequer passaram da primeira fase da Copa. Mesmo assim, acho que não é o caso de abandonar aquele hino tristonho cantado com muito orgulho e com muito amor.

Se o motivo de tamanha indignação vem do choro de nossas crianças, saibam que isso também pode ser positivo. Vivemos uma época estranha em que as frustrações são evitadas doentiamente, mas digo com propriedade, o futebol é uma fonte inesgotável de lições. Já perdi a conta de quantos jogos importantes já vi meu time perder e confesso, em vários deles achei que não fosse aguentar o sofrimento... No outro campeonato já estava firme e forte, torcendo como sempre.

Compartilho da ideia dos especialistas de que o futebol brasileiro precisa de uma mudança profunda em sua estrutura para que resgatemos nossa identidade. Aconselho quem tiver curiosidade, que assista à entrevista do ex-craque alemão Paul Breitner à ESPN no ano passado. Muito antes da fatídica goleada no Mineirão, ele já apontava nossos problemas e muitos acharam exagero à época.

E é exatamente neste ponto que a mudança, a meu ver, também deve incluir a nossa forma de olhar para o futebol brasileiro. Nosso desempenho vexatório nesta Copa também tem a ver com o sentimento atávico que carregamos, achando que o talento fará a diferença a qualquer momento, que sempre surgirá uma jogada genial e que a tradição sempre pesa a nosso favor. Criticamos os responsáveis técnicos por usarem essas ideias como base de um trabalho, mas também acreditamos nelas. Acreditamos que somos os melhores e deixamos de olhar para o que os outros times andam jogando.

Como nas tragédias gregas, espero que esta nos ensine a enfrentar nossas fraquezas, e não seja apenas uma mancha no orgulho de torcedores pontuais em um período específico. Afinal, com tantos problemas que temos no dia a dia, é normal incorporamos algumas tragédias. Como a conta atrasada que eu não tenho como pagar ou o despertador que não toca e me faz aguentar a cara feia do chefe.


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