Um Convite ao Olhar

Memória


O cinema é recheado de grandes filmes sobre viagem no tempo. De um modo geral, a maioria se vale da ideia fundamental da autoajuda: “Faça bom uso do seu tempo, pois ele é único e precioso”! Os bons filmes dão o recado sem ser piegas, com recursos narrativos que tiram a sensação de mais do mesmo. Particularmente os meus preferidos são: A trilogia “De Volta para o Futuro”; “Feitiço do Tempo”; “Efeito Borboleta” (Apenas o primeiro!) e o recente “Questão do Tempo”.

Este último trata-se da nova comédia romântica (não gosto de classificações, mas aqui é relevante) do diretor Richard Curtis, que tem no currículo participação nos roteiros de “Quatro Casamentos e um Funeral” e “Um Lugar Chamado Notting Hill”, além da direção do agradável “Simplesmente Amor”. Seu novo filme tem o mesmo clima dos que citei, bons personagens e situações que nos identificamos.

Quando o tímido Tim (Domhnall Gleeson) completa 21 anos, seu pai (Bill Nighy) revela que todos os homens da família têm a capacidade de viajar no tempo. Ao usufruir desse poder, Tim percebe que ele pode ajudá-lo na conquista da garota por quem se apaixona (Rachel McAdams). Mas, o tempo não é algo fácil de lidar, suas viagens começam a mudar coisas de sua vida que preferia manter.

Talvez o fato de ter completado 34 anos recentemente tenha me deixado mais vulnerável à ideia do filme, mas é inegável a habilidade de Richard Curtis em emocionar e cativar o espectador.

Viajar no tempo é um desejo que habita nossas fantasias desde sempre, seja para corrigir escolhas dos tempos do colégio ou simplesmente evitar aquela costelinha que não caiu bem no almoço. Tenho a impressão que este desejo está presente em muitas ações que realizamos e faz parte da nossa patética obsessão em controlar variáveis que não são controláveis, numa tentativa de nos enganar sobre o inevitável desfecho da nossa história. Mas deixemos a “filosofice” (ou não) para os que sabem. Nietzche (viver como se tudo tivesse que retornar) e Bergson (a dimensão do tempo é medida pelo presente) estão entre tantos que dedicaram-se ao tema.

Aos fãs de cinema, recomendo “Questão de Tempo” como ótimo entretenimento. Mas não estranhe se ao terminar o filme tiver vontade de ligar para aquele amigo ou parente que lembra de suas histórias dos tempos mais distantes. Essa é a nossa máquina do tempo: a memória… Nossa e dos outros!

 

Carta para o "Eu" Adolescente


Não tenho a pretensão de viajar no tempo como o protagonista do filme, mas se de repente me deparasse com uma lâmpada mágica e o gênio me contemplasse com o direito de mandar uma carta para mim há 20 anos atrás, acho que, na melhor intenção, esclarecer-me-ia...

Prezado rapazinho,

Isso mesmo, apesar de suas pretensões e sentimentos autossuficientes, você não passa de um “rapazinho”, nem criança nem adulto. Mas não se preocupe com isso, essa vontade de nunca largar o vídeo game e ao mesmo tempo ter que decidir o que quer ser quando crescer, vai te acompanhar por muito tempo... Digamos que sempre!

Aproveitando essa sua, ou melhor, nossa paixão por música, peço que amplie o seu repertório desde já. Ouça os discos do Djavan, do Caetano, do Gil e do Luiz Melodia que têm aí em casa. Sei que gosta de Jorge Benjor e isso é bom, mas vai encontrar por aí também discos dos Beatles, Santana, Rolling Stones e Bob Dylan. Por falar nisso, seria bom se antecipasse as aulas de violão, talvez com alguns anos a mais de prática melhore a nossa técnica limitada aos 30 e poucos.

E se puder, aproveite para ler mais um pouco. Sei que gosta da revista Placar, do caderno de esportes do jornal e da série vaga-lume, mas garanto que vai gostar dos livros do Luiz Fernando Verissimo, Fernando Sabino, Rubem Fonseca... Comece pelos contos curtinhos, depois naturalmente vai querer ler os romances.

Não posso adiantar muito sobre o nosso futuro, mas tratando-se de coisas irrelevantes que não vão mudar o curso da história, posso revelar alguns “spoilers”, se não quiser saber pule este parágrafo. Seguinte: seu curso intensivo de datilografia não servirá para nada. Aquele último dia que digitou no computador fará mais sentido; nossos óculos ficarão mais fracos, mas estarão conosco depois de uma breve separação, se acostume afinal já fazem parte do nosso corpo e acredite: você vai gostar deles! Aquele corte de cabelo ao estilo Charles Barkley, que você achou que não caiu bem, será a nossa única opção, vá se acostumando, afinal nunca vimos “nosso” pai cabeludo e a natureza é implacável. Aproveite e anote esta frase (a natureza é implacável!), te aliviará de alguns aborrecimentos. Se acostume também com a palavra sobrepeso... Já a expressão “Libertadores da América” é melhor esquecê-la por enquanto. A boa notícia é que depois de 18 anos poderá pronunciá-la sem ser motivo de chacota.

No mais, faça tudo como tem feito. Aos 14 ainda não perde tempo com divagações, mas garanto que o caminho que irá percorrer até aqui não é o mais tranquilo, mas entre erros e acertos, será no mínimo divertido. Outra coisa, por favor, dê um aperto nas bochechas dos nossos lindos boxers Saldanha e Samanta! Dentre tantas saudades, esta ainda não está com você.

 

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