Um Convite ao Olhar

 

Tudo é Relativo



Conhecido por fazer cinema comercial com conteúdo, Christopher Nolan não abandona esta fórmula em seu novo filme “Interestelar”. E não há motivo para isso, afinal o responsável pela grande trilogia “Batman – O Cavaleiro das Trevas” e pelos ótimos “O Grande Truque” e “A Origem”, demonstra a cada filme que é possível conciliar inteligência e sucesso de bilheteria.

Em sua nova história, o planeta já não é o melhor lugar para se viver. Num futuro não muito distante, as pessoas enfrentam pragas, tempestades de areia e sobrevivem graças à agricultura doméstica. Neste contexto, Cooper (Matthew McConaughey), que é engenheiro e ex-piloto de testes da NASA, mora com seu sogro (John Lithgow), seu filho Tom (Timothée Chalamet) e sua filha de 10 anos Murphy (Mackenzie Foy). Como não é a intenção deste texto contar todos os detalhes do filme, só posso dizer que, a curiosidade da menina somada ao relacionamento com o pai, fará com que conheçam alguns cientistas dispostos a explorar outros planetas e assegurar a sobrevivência da humanidade, projeto que de certa forma sempre habitou os ideais de Cooper. Ele encara o desafio enquanto sua família espera o seu retorno.

“Interestelar”, como toda ficção científica que se presa, utiliza conceitos científicos como mote para lançar um olhar sobre alguns conflitos humanos. Essa é a combinação perfeita para os debates e as infinitas interpretações sobre os clássicos da ficção. Até hoje o monolito de “2001 – Uma Odisseia no Espaço” gera discussões acaloradas entre cinéfilos e Neo de “Matrix”, já foi comparado a Jesus, Buda, Gandhi, Che Guevara e Aécio Neves. Tudo depende de quem assiste.

É comum nos distrairmos com a grandeza das teorias científicas de filmes desse gênero e nos distanciarmos de contextos mais próximos. Por isso não vou escrever sobre física quântica, buraco de minhoca, muito menos sobre dilatação gravitacional do tempo... Mas em uma analogia rasa à “teoria da relatividade”, afinal tudo é relativo (inclusive os pontos de vista), posso afirmar que assistir duas horas e meia de “Interestelar” parece mais rápido que meia hora de “Batman & Robin” do Joel Schumacher (aquele com o George Clooney).

A espera pela volta de Cooper faz uma analogia muita mais rica que a minha e nos coloca diante de questões essenciais: Como lidamos com o tempo? Como elaboramos o luto (para o que é irreversível)? Como lidamos com as reparações (para o que é reversível)? Estamos sempre esperando... Alguém, uma oportunidade, um fato novo... E esperar não é nada confortável.

Propositalmente, Nolan explora uma infinidade de referências que permite ao espectador direcionar o seu olhar, de acordo com os seus ângulos e suas profundidades. Transcendência? Vida em outra dimensão? Há argumentos para todos os gostos... Prefiro imaginar que os conflitos estão mais perto de nós e que mesmo com todo aparato científico e tecnológico, temos que aliviar nossos “fantasmas” por aqui mesmo, antes de tentar explorar galáxias mais distantes.

 

 

“Despretensiosamente” fiz uma associação livre à ideia de “Interestelar”.

 

Esperando


 

Todos os dias, Celeste acordava cedo, sem precisar do despertador. Sua rotina incluía afazeres domésticos comuns às mulheres que optam em cuidar da casa, o que lhe dava muito orgulho.

Sem filhos, dedicava toda a sua atenção ao marido. Tudo funcionava como um relógio suíço: café as seis, feira as oito. A roupa era lavada as dez e estendida as onze. Suas atividades eram milimetricamente distribuídas ao longo do dia até chegar o grande desfecho: o momento em que Carlos Roberto chegava do trabalho.

Homem tranquilo, de hábitos simples, conquistou a admiração da esposa pelo humor. Era capaz de fazê-la rir por horas, e transformar momentos enfadonhos em verdadeiros tesouros para a eternidade. O tempo passava depressa ao seu lado.

Essa equação seguiu por um tempo, mas lentamente tornou-se proporcionalmente inversa. Carlos Roberto com os anos trocou a alegria pelo silêncio, o riso pelo lamento. Celeste percebeu o declínio da relação, mas não esmoreceu.

Numa tarde de quarta-feira, Celeste aguardava Carlos Roberto voltar do trabalho como sempre, mas ele não voltou. Confusa, cogitou ligar no escritório. Desistiu ao lembrar que ele não gostava. Nos dias que se seguiram continuou seus afazeres normalmente, afinal há trinta anos era assim que passava o tempo.

Todos os dias, Celeste acorda cedo, sem precisar do despertador. Sua rotina inclui afazeres domésticos comuns às mulheres que optam em cuidar da casa, o que lhe dá muito orgulho. Ainda espera o marido todas as tardes e quando o tempo teima em passar devagar se distrai lembrando os momentos divertidos que viveu ao seu lado.

 

 

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