Um Convite ao Olhar

Atrás do Pote de Ouro

Nos cinemas há algumas semanas, “Serra Pelada” é um dos melhores filmes nacionais da temporada. Não gosto do discurso “inteligentinho” que considera as comédias nacionais, em alta ultimamente, um cinema menor. Acho que assim como no mundo inteiro, produzimos filmes bons, médios e ruins e o fato de existir um público que vai ao cinema para ver filme nacional, com a baixa quantidade de salas que o país tem, já é um grande feito. A concorrência com Hollywood nunca será de igual para igual!

Por isso, para aqueles que amam odiar as comédias televisivas, o novo filme do cineasta pernambucano Heitor Dhalia é uma ótima opção. Não se trata do seu melhor filme, para o meu gosto estão na frente “O Cheiro do Ralo” e “À Deriva”, mas após um projeto que nitidamente não tinha a sua assinatura (o fraco “12 Horas” com a estrela hollywoodiana Amanda Seyfried), o cineasta acertou a mão ao apostar numa mistura de estilos (gângster e faroeste) ambientada num episódio fascinante da história do Brasil.

Para isso, centralizou o filme nos amigos Juliano (Juliano Cazarré) e Joaquim (Júlio Andrade), que, assim como milhares de brasileiros da época, decidem deixar suas vidas em São Paulo para tentarem a sorte no garimpo. Com um roteiro bem estruturado, o ambiente em Serra Pelada e o sistema ao qual aquela multidão se submeteu são reproduzidos de forma fiel e didática, mostrando o que chamam de “Brasil profundo”, cada vez mais raro nos dias de hoje, após alguns anos de programas sociais. Também vale destacar as atuações de Sophie Charlotte e Wagner Moura, em papéis importantes na trama.

De forma geral, podemos enxergar em “Serra Pelada” a famosa corrida pelo ouro, que faz parte da história da humanidade. A ambição está presente em nosso comportamento desde sempre e vai além do discurso cafona sobre a sua importância ou a diferença com a ganância. Acho que obras como esta servem para, no mínimo, fazermos um exercício moral: Vale tudo para realizarmos nossos objetivos materiais? Há limites para alcançá-los?

No filme, há um rompimento entre os amigos justamente porque um percebe que gosta de jogar aquele jogo com suas regras e resultados, o outro não. Entendo que faz parte da característica humana traços como a agressividade e a competitividade e também desconfio que somos desprovidos de mecanismos que nos deem limite. Tipo boia de caixa d’água que mantém o nível para a água não transbordar. Na ânsia de encher o pote de ouro não sabemos a hora de parar as apostas. O poder é fascinante! Ele é quem dita as regras e dá as cartas desse jogo! 

Não vejo problema nenhum em ser rico, pelo contrário, parece muito bom e prático, mas considerando especificamente as minhas características, acho que às vezes o brilho do ouro distorce a visão de quem o persegue, a corrida pode ser cansativa, nociva e direciona a atenção ao que menos importa. Traduzindo: estou fadado a ser um pobre gentil...

Frágil Insignificância

Não foi uma surpresa. Já havia lido comentários e matérias elogiosas sobre o filme “Gravidade” de Alfonso Cuarón, mas após uma semana em cartaz e a unanimidade dos “especialistas” resolvi conferir se era tudo isso... E não é que era mesmo!

O novo filme do cineasta mexicano é desses que geram acaloradas discussões sobre significados, além de pertencer ao riquíssimo gênero “ficção científica”, adorado pelos analistas e palpiteiros de plantão (como eu!). Sobre as atuações, George Clooney e Sandra Bullock exibem uma sintonia perfeita como o astronauta Matt Kowalski e a médica Ryan Stone. Em relação às cenas, o filme é grandioso! Suas sequências são de tirar o fôlego e merecem ser vistas na tela grande. Quanto às sutilezas do roteiro, para mim, é a grande proeza de Cuarón, pois um projeto com tantas inovações em efeitos especiais por si só já garantiria um grande filme, porém, a luta dos astronautas para sobreviverem num ambiente completamente inapropriado para a vida humana, revelou ser tão importante quanto suas imagens.

Dos diversos olhares para a aventura dos astronautas, gosto da ideia da fragilidade do homem diante do universo, tema brilhantemente discorrido num texto do Mario Sérgio Cortella em seu livro “Qual é a sua Obra?” (link: http://bit.ly/1gnwdLm). Perceber a nossa proporção diante da grandiozidade de um sistema como a galáxia me fez pensar no tamanho da nossa pretensão.

Vivemos o período mais vaidoso da história. Nosso cotidiano é povoado por personagens que valorizam seus feitos, não enxergam beleza além do espelho ou do universo umbigo. Pego emprestado de um texto do programa “Peripatético” da TV Cultura, a afirmação: “Para falar de vaidade é preciso sinceridade e autocrítica. Afinal, ela é a mentira que contamos sobre nós mesmos para não encararmos as nossas verdades”.

Olhar para nossas verdades é encarar o vazio. Talvez isso explique tanta valorização por nada, tanto debate sobre biografias que nem todo o mundo esteja querendo ler. Rever Copérnico, Darwin e Freud pode ser um bom caminho para refrescar um pouco a memória e deixarmos de ser “tudólogos especialistas do Google”. Aliás, esta ideia de especialização é uma chatice! O próprio filme serve como exemplo... Boa parte dos expectadores, “especialistas” em ficção científica, leis da física e chatice do universo (os Chatos dominam o mundo por inércia), reclamam falhas “técnicas” do filme que eu não vou perder tempo de listar. Diante da nossa insignificância desviamos o olhar para enxergarmos apenas o que queremos ver!

O Olhar de Kubrick

Acontece até janeiro do ano que vem a exposição do cineasta Stanley Kubrick, no Museu da Imagem e do Som (MIS) em São Paulo. Estive por lá na semana passada e recomendo mesmo para quem não tenha assistido aos filmes ou não seja fã do cineasta americano como eu, afinal é outro tipo de experiência.

Também recomendo para quem ainda não teve a oportunidade, que assista à obra de Kubrick que é facilmente encontrada. Trata-se de um mestre do cinema, que ganhou respeito e notoriedade no mercado dos grandes estúdios fazendo filmes modernos, com conceitos estéticos bem elaborados e equilibrando com precisão o entretenimento e a arte (se é que há delimitações entre eles), algo que muitos artistas buscam, mas poucos conseguem.

Um dos pontos altos da exposição no MIS é a reprodução de alguns destes conceitos em seus ambientes. Cada filme compõe um, com câmeras utilizadas, memorabília, roteiros originais, figurinos e cenários. As entradas lembram salas de cinema e todas elas dispõem de imagens e sons originais dos filmes. É possível caminhar pelos corredores do hotel de “O Iluminado” ou ter acesso à Discovery One de “2001 – Uma Odisseia no Espaço”.

A empolgação é inevitável e após o segundo filme confesso que cometi o pecado de sacar o celular para registrar aquelas imagens, mesmo não gostando desta “mania” de querer guardar tudo, tão comum atualmente. Quando entrei na sessão do filme “De Olhos Bem Fechados” a bateria acabou. Era um corredor de espelhos com as máscaras e os figurinos usados no ritual que o personagem do Tom Cruise participa sem ser convidado. Ironicamente, tive que guardar na lembrança a minha imagem refletida naquele universo onírico... Certamente uma foto salva no celular não teria o mesmo efeito! Vida longa ao visionário Stanley Kubrick!

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