Um Convite ao Olhar

Mania de Gente Normal

Em cartaz nos cinemas da nossa região, “O Lado Bom da Vida” divide a opinião dos expectadores brasileiros. Esta é a sensação que tive ao ler alguns comentários de críticos profissionais e de reles palpiteiros metidos a besta, como eu. Percebi que as críticas positivas ao novo longa de David O. Russell destacam a atuação do elenco e o roteiro bem humorado, enquanto os que não gostaram citam a previsibilidade e os clichês da trama, além de implicarem com o desfecho, numa espécie de ranço aos finais felizes. Parece que é um demérito intelectual gostar de filmes que não traem nossas expectativas, que tenham roteiros sem pontas soltas e que sejam divertidos. Se além de tudo isso for produto de Hollywood, aí a heresia é completa!

Acho que há diversão de Spielberg a Kiarostami, de James Cameron a Lars Von Trier (citando apenas alguns). Por isso, tenho dificuldade em entender as razões de alguém desperdiçar seu precioso tempo para comentar algo que não gostou; ainda mais usando uma verborragia técnica que mais parece um manual de câmera digital.

Pois bem, vamos ao que interessa. “O Lado Bom da Vida” é muito mais que uma comédia romântica hollywoodiana e também vai além das ótimas atuações do elenco. Resumidamente, o filme mostra a história do professor Pat Solitano Jr. (Bradley Cooper) que após alguns meses num sanatório volta para a casa dos pais com a ideia fixa de retomar a vida e o casamento (cujo término desencadeou sua crise e internação). Mas por “ironia do destino” seus planos tomam novos caminhos quando conhece Tiffany (Jennifer Lawrence), uma linda garota que tenta superar a recente morte do marido.

Se lendo a sinopse parece uma oportunidade de conhecer o universo de pessoas em crise, portadoras das síndromes emocionais da moda, vendo o filme ocorre o contrário. Rapidamente me identifiquei com o comportamento dos personagens que são bem familiares. Este é um dos méritos do roteiro: a desconstrução da condição de sanidade e loucura. O ambiente social que Pat encontra fora do sanatório é cheio de comportamentos compulsivos (seu pai brilhantemente interpretado por Robert De Niro é o maior exemplo), de regras escusas e soluções fantasiosas.

Claro que para enxergar por esta ótica é preciso se desapegar do vício de olhar para o defeito alheio como se estivéssemos livres deles ou não fizessem parte da nossa natureza. Neste ponto, concordo com a afirmação do filósofo francês Luc Ferry: “a gente sempre fica indignado em relação aos outros e não a si próprio, com o que a gente faz. Isso não é um sentimento moral autêntico”. Quem nunca alertou os amigos ou familiares que não tocassem em determinado assunto com alguém para que este não sofra, como se fosse possível dar um simples “delete” nos fatos indesejados da vida; quem nunca quebrou a cara fazendo mal juízo de alguém; quem nunca acreditou num jeito infalível de conseguir algo que não depende da nossa ação… Enfim, a atmosfera da história é recheada de exemplos que ilustram nossa obsessão em ter o controle de tudo e de todos e a descabida mania de perfeição que nos acompanha e tanto nos desumaniza.

Numa época em que cada vez mais busca-se camuflar os defeitos em busca de uma imagem perfeita ou ao menos dentro da tal “normalidade”, “O Lado Bom da Vida” e suas sutilezas tira um sarro desta bobagem. Depois de ver o filme desisti de “curar” minha mania de deixar o volume sempre em número par; aceitei melhor meu hábito de assistir aos jogos do Corinthians no mesmo lado do sofá e continuei seguindo a regra de nunca, em hipótese alguma, ler o caderno de cultura do jornal antes do de esporte. Cada um com a sua…

A Vida Imita o Vídeo

Quem se encantou com a comédia italiana “Habemus Papam”, de Nanni Moretti, não pode evitar a comparação entre o dilema do Cardeal Melville no filme e a renúncia do Papa Bento XVI. O próprio cineasta brincou pelo Twitter dizendo que “às vezes o cinema pode antecipar a realidade”. Lembrando a cena final, a do discurso do Papa (fictício), me sinto honrado em testemunhar a condição humana de um homem santo. 

Choque de Intimidade

Outro filme interessante que deve estrear nas próximas semanas é “As Sessões”, de Ben Lewin. Baseado em fatos reais, conta a história do jornalista e poeta Mark O’Brien (John Hawkes), que devido à poliomielite tem limitações de movimentos. Muito religioso, tem uma bonita relação com o padre Brendan (William H. Macy), para quem confessa ser virgem aos 38 anos, fato que o incomoda. Mesmo assim, produz um artigo sobre a vida sexual de deficientes físicos, que o ajuda a conhecer o trabalho de Cheryl (Helen Hunt) uma terapeuta que utiliza “exercícios de consciência corporal” com seus pacientes. Aliás, a atuação de Helen Hunt é primorosa, não à toa concorre ao Oscar de atriz coadjuvante no dia 24.

Assim como no belíssimo filme francês “Intocáveis” e seu protagonista tetraplégico Phillipe, em momento algum sentimos “peninha” de Mark. Ao contrário, trata-se de um cara divertido, talentoso e cheio de encantos (um poeta!).

Aqui cabe a primeira contraindicação: se você acredita na benevolência da filantropia (principalmente quando rendem boas fotos que te fazem ficar bem com seu chefe), não assista a este filme. O trabalho de Cheryl (terapeuta) nada tem de filantropo, possui regras bem definidas em relação ao período (somente seis sessões), pagamento e envolvimento com seus pacientes.

Cada encontro é uma jornada de descobertas. Independente da técnica, a relação entre paciente e terapeuta avança proporcionalmente à intimidade. Mesmo com certa relutância de Cheryl, ambos se permitem e se expõem de forma autêntica. O que é cada vez mais raro nas relações, mesmo com tantas possibilidades e oportunidades, poucas vezes nos permitimos ou nos importamos de verdade com o outro.

Aqui faço a segunda contraindicação: se julgar as atitudes das pessoas é algo fundamental para suas idiossincrasias e além disso, este julgamento segue preceitos morais que regem sua sagrada família a oito gerações, não assista a este filme. Apesar dos fins terapêuticos e das técnicas bem definidas para ajudar seus pacientes a adquirirem a tal “consciência corporal”, Cheryl está longe de ser uma Madre Tereza de Calcutá.

Se mesmo com as contraindicações, os vigilantes do politicamente correto não aguentarem a curiosidade, pode ser que como eu, achem “As Sessões” um belo filme sobre as marcas que deixamos e guardamos das pessoas, sem esse papo piegas de “lição de vida”. E se não gostarem, não digam que eu não avisei.

Vai um Conselho Aí?

E já que para muitos o ano só começa após o Carnaval, indico a leitura da matéria de capa da revista Superinteressante de janeiro: "17 Conselhos Errados Que As Pessoas Dão". Lá estão listados 17 conselhos que costumamos ouvir no começo do ano e que não são tão confiáveis quanto imaginamos. Não gosto do tom científico que a revista dá, utilizando pesquisas e experimentos como chancela. Mesmo assim acho a ideia de desconstruir receitas infalíveis uma ótima pauta.

Me impressiona a nossa carência em ter sempre que ouvir algum conselho para ajudar nas nossas escolhas. Mais ainda, a necessidade que muitos têm em aconselhar suas teorias contra os males do mundo. Este aqui ficou de fora da matéria: "Ouça mais e julgue menos antes de disparar suas receitas infalíveis para o sucesso”. Uma pesquisa de Harvard (credibilidade é tudo!) afirma que 99% dos seus amigos que compartilham um problema e que não lhe pedem conselho, querem apenas que você os escute. 

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