Um Convite ao Olhar

Máquina Humana

Assistir o remake de um clássico como RoboCop, ainda mais para quem era criança nos anos 1980, exige várias (des)considerações afetivas; na época, a fantasia tecnológica do “policial do futuro” ocupava outro lugar no nosso imaginário. Hoje seria no mínimo estranho aquele herói que andava com “certa dificuldade” virar o ícone pop que foi. Por isso, para saborear melhor o filme de 2014, acho que temos que dar as devidas proporções ao período entre as duas filmagens. Como em tudo na vida, é prudente que se contextualize!

José Padilha não abandonou totalmente o filme de Paul Verhoeven, as referências estão lá. Mas o que deve ser mais valorizado, é que estreando em Hollywood o cineasta brasileiro conseguiu dar a sua assinatura ao projeto. Quem assistiu Tropa de Elite 1 e 2 vai reconhecer a mão de seu criador em RoboCop.

O novo filme acerta ao abordar a paranoia americana contra o terrorismo e a atual polêmica sobre o uso dos drones em territórios estrangeiros, além do velho e manjado envolvimento das grandes corporações na corrida armamentista. Mas o maior acerto, a meu ver, foi na construção do personagem principal.

Desta vez, o policial Alex Murphy é mutilado após uma explosão e o que resta do seu corpo é acrescentado a uma máquina que o torna um ser híbrido – “Isso não é um uniforme, isso é você!”. Temos o drama da metamorfose e o eterno conflito entre homem e máquina. Em que ponto a máquina automatiza o homem? – “Alex pensa que está no controle, mas não está, é uma ilusão!”. E quando o homem humaniza a máquina? – “O elemento humano sempre estará presente, compaixão, medo, instinto, sempre vão interferir no sistema”. "RoboCop" consegue entreter de forma inteligente, sem tratar o espectador com infantilidades (ainda que muitos prefiram).

 

Folia de Cinéfilo


Neste ano a badalada cerimônia do Oscar vai dividir as atenções com as transmissões do Carnaval do Rio de Janeiro. Mais uma coincidência entre as duas festas, tradicionais pelo luxo, ostentação e pela exploração da vida glamorosa de seus convidados. Nos últimos anos o Carnaval carioca tem pago muito bem para os artistas de Hollywood darem o ar de sua graça por aqui; a concorrência será desleal neste ano.

A grande vantagem do show midiático da época do Oscar é a safra de bons filmes que entram em cartaz nos cinemas. Na nossa região já passaram alguns e outros ainda estão em exibição (infelizmente vários não passam em Jacareí).

Como de costume em todo ano, dei um jeito de ver a maioria e achei que aqueles que tiveram o maior número de indicações, principalmente os que concorrem ao prêmio de melhor filme, justificam suas escolhas.

Sobre os filmes, escrevo mais em próximos comentários (pretendo ser mais assíduo). Quanto às premiações, certamente Matthew McConaughey leva o prêmio de melhor ator, Cate Blanchett de atriz e Alfonso Cuarón de diretor. A disputa por melhor filme está entre “Gravidade” e “12 Anos de Escravidão” (Podia valer algum prêmio para os palpiteiros).

 

A Natureza Humana no Cinema

Algumas demonstrações de hostilidade ganharam destaque na mídia nas últimas semanas. Casos de espancamento de pessoas acusadas de crimes e a estúpida manifestação da torcida contra o jogador Tinga inflamaram jornalistas reacionários e movimentaram as redes sociais.

As reações demonstram uma certa contradição na nossa maneira de encarar os fatos. Ao mesmo tempo em que houve um clamor por tolerância e consciência social devido ao ato racista, também houve incentivo à justiça com as próprias mãos nos diversos casos de linchamento país afora. De repente nos transformamos numa nação justa, sem racismo, sem homofobia, onde a sociedade secreta dos anões não processa humoristas por calúnia e difamação; e quem não segue as regras básicas de conduta deve ser execrado.

Temos o hábito de criticar a intolerância dos outros sem olhar para a nossa! Tenho certeza que muitos que acharam um absurdo o coro da torcida no Perú, dão aquela conferida na dispensa depois que a diarista vai embora; ficam radiantes quando encontram aquele amigo que não veem há tempos e percebem que ele está mais gordo ou têm uma “invejinha” quando o cunhado troca de carro. Aprendemos que tudo isso é desprezível e nos impede de ser feliz (a felicidade é um fetiche!), mas não conseguimos nos livrar desses sentimentos. Com isso atuamos como personagens para disfarçar estes “defeitos de fabricação” e no momento em que alguém atrapalha esta dinâmica, ou quebra a quarta parede como os atores gostam de dizer, a reação é excluí-lo da cena. A violência é um ótimo meio de manter o “status quo”. Talvez o filósofo Thomas Hobbes tivesse razão quando dizia que o homem é mau e a sociedade o faz menos mau.

No cinema, muitos filmes tratam das fraquezas da tal “Natureza Humana”. “O Som Ao Redor” de Kleber Mendonça Filho é o filme brasileiro que melhor retrata as ironias sociais e morais que vivemos por aqui.

“Zona do Crime” de Rodrigo Pla é um filme mexicano que apresenta uma situação parecida com os linchamentos que andam acontecendo, as pessoas “exterminam” aqueles que atrapalham seu projeto de felicidade (trabalho, consumo e diversão).

E finalmente “A Caça” de Thomas Vinterberg. Sabe quando todo mundo acusa alguém de algo grave e aquilo vai tomando proporções tão grandes que se esquecem de verificar se é verdade? Mas são só histórias... “Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência”.


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