Um Convite ao Olhar

Pé na Estrada

No último fim de semana assisti: “À Beira do Caminho”, “Na Estrada” e “360”, três ótimos filmes em que a estrada tem papel preponderante na trama. Os dois primeiros com mais cara de “roadie movie”; com muitas imagens abertas, cenas de estrada e viagens. O último, um “short cut” ao estilo Robert Altman, onde a estrada é menos presente mas seus personagens estão conectados pela transitoriedade. Por coincidência, na semana passada também vi “Paris, Texas”; um dos mais cultuados filmes de estrada e obra-prima de Wim Wenders. Não há dúvida que Walter Salles, Breno Silveira e Fernando Meirelles beberam na fonte do mestre...

Pra Quem Não tem Nada, Metade é o Dobro

A ideia de costurar uma história a partir das músicas do Roberto Carlos fez de “À Beira do Caminho” um dos lançamentos nacionais mais interessantes do ano. Aliado a isto, os trabalhos anteriores de Breno Silveira (Dois Filhos de Francisco e Era Uma Vez) davam o tom de que o cineasta poderia conduzir o projeto de forma simples e sensível. Como o fez.

O encontro do sisudo caminhoneiro João (João Miguel) com o menino Duda (o prodígio Vinicius Nascimento) é uma daquelas histórias que nos conquista pela construção do relacionamento entre os personagens. Numa viagem pela Bahia, o solitário motorista encontra o menino escondido na boleia de seu caminhão, dizendo ter perdido a mãe e que ia até São Paulo encontrar o pai. Aos poucos, os motivos das marcas do caminhoneiro e da sua opção pelo isolamento são revelados, e seus escapismos dão lugar a uma bonita relação com o menino. Ao se deparar com a orfandade de Duda, João consegue reestabelecer seus laços. Todos os subterfúgios que costumamos usar para justificar nossos comportamentos hostis costumam não resistir à espontaneidade e ao afeto.

As canções entram em todos os contextos, são tão marcantes e presentes no nosso imaginário que se tornam personagens! Em algumas cenas Breno Silveira utiliza frases de caminhão para ilustrar as emoções dos personagens. “Pra Quem Não tem Nada, Metade é o Dobro”, para mim, resume o que há de melhor no filme: os momentos em que os protagonistas conseguem compartilhar e multiplicar o pouco do que ainda lhes restam.

Viajar é Preciso

Dizem que coragem é uma virtude que não garante a qualidade de um trabalho cinematográfico. As críticas divididas em relação ao novo filme de Walter Salles, “Na Estrada”, podem ser um sinal de que realmente, a sua coragem para encarar um projeto tão emblemático, não aliviou o rigor dos críticos.

Como só havia lido alguns trechos do livro de Jack Kerouac, fui ao cinema ciente da extensa pesquisa dos realizadores e sem grandes expectativas, mas sabendo que a história influenciou a geração da época e também o movimento hippie nos anos 1960.

O que vi foi um belo filme, intenso, inspirado e inspirador! Com personagens luminosos e apaixonantes. O trio protagonista exala juventude; a amizade entre Sal Paradise (Sam Riley) e Dean Moriarty (Garrett Haedlund) se constrói num jogo de intensidade e ponderação, onde Dean (inconsequente e visceral) está sempre disposto a levar o amigo Sal (racional e observador) para o olho do furacão. O triângulo também conta com Marylou (Kristen Stewart) jovem amante voluntariosa de Dean (a cena em que ela está entre Dean e Sal no banco do carro já é antológica).

No livro, o registro das idas e vindas de Sal pelo território dos Estados Unidos é o combustível para o ritmo do texto. Na tela, Walter Salles conseguiu traduzir o cultuado estilo com a ajuda da bela fotografia de Eric Gautier, além de muito jazz como auxilio às belas imagens.

A tensão entre escolher um caminho seguro ou se deixar levar pelas surpresas da estrada é o que move os personagens do filme. Em geral, esta tensão está presente na vida de todos os pobres mortais. A medida da aventura varia de acordo com o medo que regula a sua sociedade (intensa ou não).

Sempre tive afinidade com pessoas mais intensas, elas sempre me ganharam. Acho que são encorajadoras, dificilmente erram por omissão e estão sempre buscando seus caminhos.  “Na Estrada” reúne várias delas, e esta reunião salta aos olhos. Faz uma exaltação à liberdade de escolhas, uma celebração à vida e suas possibilidades.

Bifurcações no Caminho

Li que “360” não foi bem recebido pela crítica mundial. Uma pena, pois filmes de estilo parecido como “Crash – No Limite” e “Babel” tiveram uma repercussão diferente... Talvez o novo filme de Fernando Meirelles seja menos pretensioso, com personagens menos elaborados, e vá lá, tenha seus defeitos como tantos outros festejados; mas é um filme agradável e se comunica perfeitamente com o expectador.

O roteiro de Peter Morgan (A Rainha, O Último Rei da Escócia e Além da Vida) costura várias pequenas histórias de pessoas de diferentes cidades no mundo. Rapidamente percebemos que estão distantes fisicamente, mas que há uma conexão entre elas, afinal o próprio nome do filme dá uma ideia de ciclo e obviamente que este jogo de dedução é intencional. Todos os personagens vivem um momento de incerteza, alguns com seus companheiros, outros com o trabalho, enfim todos vislumbram uma possibilidade de mudança  Não é à toa que mais de uma vez ouvimos a frase: “se há uma bifurcação na estrada você deve pegá-la”.

Acho que a dupla Morgan/Meirelles acertou na composição da maioria dos personagens, pois mesmo aparecendo poucos minutos, são reconhecíveis. Temos a esposa insatisfeita com o casamento mas que não tem coragem de deixar o marido; a jovem ambiciosa e bonita que quer dinheiro fácil; o homem de meia idade insatisfeito com a profissão, o amante canastrão que deseja ficar com as duas mulheres; o homem que renega o seu desejo por preceitos morais. Mas a personagem que mais me chamou a atenção foi a jovem brasileira Laura (Maria Flor), que traída, tenta resolver o seu problema seduzindo outros homens. Assim como a personagem do episódio “Não Amarás” de “Decálogo” do Kieslowski, ela busca a remissão pelo sexo, algo comum na cultura ocidental. Antony Hopkins também está ótimo como um pai aparentemente culpado, que busca infomações sobre o paradeiro da filha. Por outro lado, achei que o pedófilo Tyler (Ben Foster) foi prejudicado pela forma caricata que o cinema retrata estes personagens, mas o promissor ator consegue amenizar com uma atuação humana, sem maniqueísmo.

Todos os personagens de “360” são retratados de forma muito humana, estão em trânsito e o deslocamento geográfico não dá conta do vazio emocional que estão sentindo. Os autores tentam preencher tal vazio com uma conexão fraterna (a velha história de que temos que contar uns com os outros), mas ela invariavelmente é frouxa... Somos precários, não sabemos lidar com a indiferença! Amamos com a expectativa de que o outro decore a nossa casa, numa inversão do “Carreto” sugerido pelo mestre Mário Quintana... “Amar é mudar a alma de casa”.

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