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Mesmo sem querer, ouvimos música a todo instante. Trata-se de uma das formas de arte mais abrangentes e democráticas. Talvez por isso, sem darmos conta, nos pegamos cantarolando o hit do último carnaval na fila do banco. A força de uma canção é capaz de chacoalhar o nosso imaginário. É comum nos deparamos com letras que descrevem com precisão nossos dissabores ou maiores alegrias.

Se conectar com seu público deve ser o objetivo de todo artista, mas como toda forma de comunicação, as vezes há interferência. Certa vez, no programa Altas Horas, uma moça da plateia perguntou ao músico Paulo Miklos, à época ainda no Titãs, o que os autores da música “Flores” queriam transmitir com aquela letra. Disse que gostaria de comparar a resposta com sua interpretação para a música. Antes de responder, o músico pediu para que descrevesse a interpretação e com muita clareza, a espectadora afirmou que a música era um relato de alguém que havia cometido suicídio (os punhos e pulsos cortados) e que estava dentro de um caixão (há flores por todos os lados, há flores em tudo que eu vejo). Achei muito coerente, mas fui surpreendido pela resposta do Miklos, que elogiou o ponto de vista da moça, mas disse que não tiveram aquela interpretação na concepção da letra. Simplesmente tentaram com aqueles versos, falar de forma lírica sobre flores. Simples assim! Não é à toa que “Flores” tem incontáveis interpretações na internet.

Mas este não é o exemplo que mais gosto. Numa conjuntura de coincidências, ou obra do acaso, duas músicas que foram feitas em situações diferentes e locais bem distintos, expõem um caso em que criadores perdem completamente o controle sobre suas criaturas. Tanto a música “Como eu quero” do Kid Abelha, como “Every breath you take” da banda inglesa The Police, são interpretadas pelos fãs como verdadeiras declarações de amor, mesmo com recorrentes explicações sobre as verdadeiras intensões de seus autores.

A canção “Every breath you take”, foi lançada em 1983, é um dos maiores clássicos da banda The Police, ou melhor, do rock mundial. O vocalista e compositor da música Sting revelou que se diverte quando a escolhem para cerimônias de casamento: “É uma canção fruto da experiência de ciúme e possessividade. Uma canção sinistra, perversa”. Após a explicação do autor, não resta dúvidas sobre suas intenções com versos como: “Cada suspiro que você der, cada movimento que você fizer… Eu estarei te observando”. Mesmo assim, cantada de forma doce e tocada como uma balada romântica, teve outras interpretações.

O outro caso, a música “Como eu quero”, do Kid Abelha, foi composta a partir da percepção de Leoni e Paula Toller sobre o relacionamento de um ex-integrante da banda. Na época ele namorava uma moça que era contra sua opção pela carreira musical, achava que aquilo não teria futuro (solos de guitarra não vão me conquistar / tira essa bermuda que eu quero você sério). Mas neste caso, acho que a interpretação equivocada se deve ao refrão. A repetição docemente cantada de “Eu quero você como eu quero”, esconde a verdadeira intenção do verso, que seria mais explícito se fosse cantado “eu quero você como eu quero que você seja”. Numa versão tardia, Leoni tenta (em vão) corrigir o equívoco.

A grande coincidência das duas canções lançadas com apenas um ano de diferença não se limita ao imenso sucesso que fizeram, nem à confusão do público sobre suas intenções. Ambas retratam o desejo de controle numa relação “amorosa”, fato que talvez tenha ajudado na leitura romanceada. Ainda há quem naturalize esta manifestação obsessiva como forma de cuidado e carinho, acreditando que faz parte do pacote controlar e transformar o outro naquilo que lhe é conveniente. Infelizmente esta dinâmica muitas vezes não é percebida por seus personagens. De repente, uma parte do casal começa a frequentar lugares que nunca frequentaria antes do relacionamento ou passa a usar aquela roupa que o deixa mais sério e sem se dar conta, assovia “Every breath you take” e “Como eu quero” na fila do banco.

 

email: andreycs13@gmail.com


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