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Desde sempre fui adestrado a gostar de cachorros. Acho que em todos os lugares que morei havia um pelo menos. Lamento profundamente por aqueles que nunca tiveram a experiência de receber incondicionalmente demonstrações de carinho e principalmente por não ter a possibilidade de ampliar seus sentidos. Os bichos nos ensinam a lidar com a subjetividade. O olhar de um cachorro é mais expressivo que muitos “textões” postados aos berros em redes sociais. E para aqueles que torcem o nariz, isso não tem nada a ver com ser pai ou mãe… Cachorro é cachorro e filho é filho! O comercial abaixo conseguiu sintetizar bem essa relação.

Minha memória afetiva canina começa com o Negão, um vira-lata grandão de olhar sereno, que segundo informações prévias era uma mistura de Fila, Labrador e Rottweiler. Aos sete anos de idade, confesso que tinha dificuldade para entender essa matemática genética (como três cachorros poderiam cruzar e gerar aquela mistura?). O Negão foi trazido já idoso, reza a lenda que seu antigo dono dividia a cachaça com ele… De qualquer forma, a fama de bebum foi totalmente apagada por sua imponência, quando chegou sentado no banco da frente do Corcel II do meu pai. Esta imagem está tão viva na minha memória quanto à cena dos moleques voando de bicicleta no filme E.T. – O Extraterrestre.

Pouco depois ganhamos a Samantha, filhote de boxer engraçadinha que remexia todo o corpo quando abanava o rabo (eu dizia que era o rabo que a abanava). Com dois anos deu cria a quatro “boxerzinhos”, dentre eles o Saldanha, que formaria a dupla de cachorros que cresceu comigo. Como uma boa dupla de “Clowns”, ela era o palhaço Branco e ele o Augusto.

Já adulto e casado, acolhi outra dupla: Frederico e Frida. Ele um teckel preto e caramelo, ela uma vira-lata do tamanho de um poodle, com cara de pinscher e energia de um fox paulistinha.

Encontrei o Fredão num lava rápido, perambulando pela rua como se estivesse caçando algo que só ele via. Fiquei preocupado de algum carro atropelá-lo pois era uma rua movimentada e suas corridinhas em círculos invadiam o espaço dos carros. Quando soube que não tinha dono e estava por ali há dois dias não hesitei em levá-lo. Em pouco tempo, fomos tomados por aquele “serzinho” ansioso e maluco. Descobrimos que era especialista em caçadas imaginárias, ficava horas no sol caçando. Qualquer coisa que produzisse sombra ou reflexo eram alvos (não a coisa em si, mas as sombras e os reflexos). Tínhamos diversão garantida produzindo sua caça com espelhos ou afins. Nas vezes que o inimigo se tornava real, mostrou-se um habilidoso anunciante de intrusos. Principalmente com roedores que queriam uma parte da sua janta.

Com o tempo, nosso obsessivo compulsivo foi diminuindo suas atividades imaginárias, depositando sua energia em coisas mais concretas, como os petiscos que dávamos com o intuito de educá-lo a fazer xixi no quintal antes de dormir, pois era comum sua demarcação em lugares inconvenientes durante a madrugada. Astuto, descobriu que se fosse no quintal e fingisse o xixi, ganhava o petisco do mesmo jeito… Não deu outra! Logo o condicionado passou a condicionador. E assim aprendeu a nos controlar apenas com seu olhar, que lhe garantia petiscos e afagos.

Como todo ser evoluído, criou hábitos sofisticados como apreciar uma boa orelha de boi defumada ou se acomodar no colo de mulheres. Não me lembro de vê-lo de barriga para cima com visitas masculinas, esse era o código para nossas amigas e familiares presenteá-lo com o que queria.

Nesta semana o Fred sentiu o peso dos seus 15 anos. Seu corpo já não era mais compatível com sua agitação e espírito aventureiro. Nosso especialista em caçadas imaginárias foi embora enfrentar seus moinhos de vento… E a saudade que deixou é do tamanho da sua alegria!

email: andreycs13@gmail.com


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