Foto: Lee Smith / Reuters
O episódio do podcast Rádio Novelo Apresenta que saiu após a derrota do Brasil para a Noruega é um primor! São duas histórias que se conectam pelo futebol. Se você, raro leitor, passou este último mês em Marte, talvez não tenha se deparado com a repercussão das seleções envolvidas na Copa; caso contrário, certamente ouviu alguma teoria da conspiração que dava como certo o título da Argentina; soube de diversos motivos para odiar o Mbappé ou esbarrou em alguma discussão no “X” (ex-Twitter) entre detratores e passadores de pano do Neymar Jr.
As histórias do podcast remetem às narrativas que inventamos para que esse evento global tome a devida importância na nossa vida (ou não) — porque, para cada cidadão que transforma esse mês num divisor de águas, tem sempre aquela tia chata que diz: “Que bobagem, é só futebol!”.
O motivo que me fez trazer o tema para este texto foi a parte em que o jornalista da SporTV Marcelo Barreto fala sobre seu trabalho acadêmico, no qual avaliou minuciosamente a forma como os locutores esportivos escolhem contar as histórias das nossas derrotas. No segmento intitulado “Como narrar uma derrota”, Barreto resgata uma máxima deliciosa de que o narrador de futebol não pode ter uma idade mental superior a doze anos, porque ele precisa se empolgar com as coisas. Isso é um elogio à sobrevivência do encantamento; afinal, o olhar estritamente adulto (cínico e pragmático) destrói por completo a nossa capacidade de criar mitologias. O adulto sabe que vinte e duas pessoas correndo atrás de uma esfera de couro na grama é um dado estatístico entediante. Já a criança de doze anos transforma o erro do lateral num drama shakespeariano.
Nós, torcedores, operamos exatamente nessa frequência infantil. Escolhemos a dedo quais narrativas defender para que a Copa faça o sentido que nos convém. Se o Brasil é eliminado, a saída de emergência é o descarte: “O torneio perdeu a graça, o nível técnico está horroroso, vou ver uma série”. Mas se o vizinho solta fogos pela Argentina, a nossa ginástica intelectual logo esbarra na geopolítica: ou o defendemos em nome de uma “irmandade latino-americana decolonial”, ou desejamos a ruína de Buenos Aires pela “preservação da dignidade moral da nossa soberania futebolística”. Tudo ficção da melhor qualidade.
Os cronistas esportivos fazem o mesmo, mas com pose de especialistas. Assim que o juiz apita o fim do jogo, eles criam leituras com a soberba segurança de quem já sabe o resultado. Surgem teses definitivas sobre a “perda da magia do futebol brasileiro”, enquanto olham com saudosismo para o esquadrão de 1970. No entanto, se naquele fatídico lance, o Endrick tivesse driblado o goleiro, atravessado o gol calmamente com a bola no pé e o Brasil passasse de fase, os mesmos analistas mudariam o enredo em dois minutos: elogiariam o “pauperismo tático eficiente” ou a “maturidade do futebol de resultado”. A análise esportiva é a arte de prever o passado. Tudo depende do placar.
É a teoria da dissonância cognitiva de Leon Festinger aplicada ao gramado. Quando a realidade fustiga as nossas expectativas, nós não mudamos de opinião; apenas distorcemos a realidade até que ela caiba no nosso conforto psicológico. Odiamos o desconforto de estar errado. Criamos desculpas, inventamos conspirações, culpamos o vento e divinizamos o acaso, tudo para não admitir que o nosso enredo fracassou. O mais irônico é o distanciamento que julgamos ter quando olhamos para outros campos da vida. Apontamos o dedo, com um sorriso de superioridade, para os fanáticos que se digladiam em época de eleição, cegos por suas narrativas políticas, incapazes de enxergar um palmo além do próprio dogma. Mal percebemos que, ao primeiro toque na bola, fazemos rigorosamente o mesmo com todo o nosso letramento futebolístico.
Somos todos infantis, desesperados por contos de fadas que justifiquem as nossas paixões. Mas, convenhamos, raro leitor, se é para sofrer de dissonância cognitiva, que seja em nome de um pênalti mal marcado ou de uma eliminação traumática. Escolher narrativas delirantes para explicar por que a bola não entrou é infinitamente mais saudável e digno do que fazer o mesmo com ideologias políticas de estimação. Nossos doze anos de idade mental precisam ser melhor canalizados!
Insecáveis
Os quatro semifinalistas desta Copa sobreviveram a todo tipo de torcida contra e infortúnios. Todos ostentam a(s) estrela(s) de campeões mundiais no peito — algo que não acontecia nessa fase desde a Copa da Itália, em 1990, mostrando que talvez o peso da camisa ainda seja o melhor escudo antizica.
O cardápio de narrativas para esta reta final é farto. Podemos escolher a Inglaterra, que parece ter rompido com a “nhaca” do Mick Jagger em busca do seu tão sonhado segundo título, ou acenar para o controle de jogo modorrento porém eficiente da Espanha (não vou elaborar nenhuma narrativa para torcedores da França, tampouco para os argentinos).
Mas a verdade nua e crua que nos cabe engolir, enquanto espanamos as migalhas do nosso fracasso, é o espelho da nossa própria incompetência. Enquanto o Brasil naufragou na desorganização (dentro e fora de campo) e na aposta em uma geração que já tinha fracassado em outras duas ocasiões; as seleções que chegaram aos finalmente mostraram que têm estofo para o tamanho do evento.
Nesse cenário, é impossível não falar da Argentina. Mesmo sem apresentar um futebol vistoso, nossos “hermanos” têm o time com mais alma e espírito de superação do torneio. Embalados por uma torcida que, diferente da nossa, não está lá a passeio; cada jogo foi uma saga hercúlea.
Que ganhou contornos ainda mais mitológicos com a humanização definitiva de Lionel Messi. Especialmente após a histórica vitória contra o Egito, o mundo não viu o gênio frio e intocável dos tempos de Barcelona, mas sim um capitão de feições calejadas, que sangra, se emociona, chora e carrega as dores de um povo inteiro nas costas. Para a Argentina, a Copa não é um torneio esportivo; é uma jornada de redenção. E contra isso, não há secador que dê conta.





