Mais um ano começando e, como de costume nessa época, somos desafiados a fazer planos, criar cenários e traçar objetivos. É quando aquela frase “maravilhosa” de que temos 365 novas oportunidades de… (escolha sua cafonice preferida e complete) circula “pelaí” com a mesma eficiência de um mosquito Aedes aegypti. Na maioria das vezes, também é nesse momento que tentamos controlar nossas ações para que lá no fim do ano possamos reclamar do que não deu certo e justificar com outra frase fantástica: “Não tive escolha”.
Ela resolve muita coisa. Funciona como um passe livre moral. Isenta, alivia, dá até um certo conforto. Dita assim, com naturalidade, parece até madura. Mas, vista de perto, tem mais a ver com medo e falta de responsabilidade.
O “Tio” Sartre, na sua obra, já tinha estragado essa tranquilidade. Avisou que nós (seres humaninhos), não somos esse sujeito empurrado pela vida como um carrinho de supermercado com a roda torta. Nós escolhemos. O tempo todo. Até quando decidimos fingir que não escolhemos. O problema é que escolher tem um custo: o da perda… E não queremos perder nada!
Queremos o prazer inteiro, o excesso, mas com a imagem irretocável. Queremos viver no limite e cobrar do corpo (e da vida) uma resposta elegante, discreta, sem efeitos colaterais. Perder virou sinônimo de fracasso. Renunciar parece coisa de gente fraca. Abrir mão soa quase como incompetência. E aí fazemos um malabarismo curioso: escolhemos não escolher, fingindo que fomos levados pelas circunstâncias. Que “era o que dava”, que “não tinha outro jeito”.
Liberdade não é um comercial encantador de margarina. Ela vem acompanhada de angústia, dessa sensação meio indigesta de que ninguém vai decidir por nós. Quanto mais possibilidades, mais ansiedade. Quanto mais caminhos, mais vontade de sentar no meio-fio e dizer que não pedimos para escolher nada disso.
Sempre lembro de uma das primeiras vezes que fui almoçar na empresa em que trabalhei por um longo período. Era um jovem adulto, empolgado com a oportunidade naquele lugar e, claro, a hora do almoço é um raro momento de prazer na vida do trabalhador. Eu já tinha escolhido meu prato, a sobremesa e, quando fui pegar o suco, um jovem senhor à minha frente estava parado, com o copo na mão, diante da máquina. Não entendi aquela hesitação, mas em seguida ele passou o copo por TODOS os sabores! Sartre diria que, diante da angústia de não experimentar os que não escolheu, optou por não perder nada… Eu achei que era só esquisitice mesmo!
Hoje entendo que tudo é escolha!
Escolhemos ficar ou ir. Escolhemos manter tudo como está para não precisar perder nada agora, mesmo que isso custe caro depois. Porque perder prazer, ideal, imagem… Tudo isso exige uma coragem que temos economizado. “Não posso sair desse emprego” (posso, mas tenho medo). “Sou assim mesmo, doa a quem doer” (não sou, escolho ser). “Tenho que agradar a todos” (não tenho, mas também me falta coragem de ser quem sou).
No fundo, talvez o drama contemporâneo não seja a falta de liberdade, mas o pavor que sentimos diante dela. Quando temos que escolher um filme no streaming, um “date” no aplicativo de relacionamento ou, apenas, o sabor do suco que vamos tomar no almoço… Não escolher é confortável, mas também é uma escolha. E talvez a mais cara de todas.
Feliz 2026, raros leitores. Que possamos ser o que somos a partir das nossas escolhas.





