Foto: Mike Segar / Reuters
Depois de testemunhar mais uma eliminação precoce, fiz as contas meio por cima e percebi: esta é a décima Copa do Mundo que acompanho. Em 1982 e 1986 eu já era nascido, mas confesso que não guardo memórias daquele esquadrão do Telê Santana que encantou o planeta na Espanha. Da Copa seguinte, no México, lembro apenas do que importava para uma criança de cinco anos: a figurinha com cheiro de chiclete, as ruas enfeitadas e a festa dos adultos a cada vitória.
Foi somente na Itália, em 1990, aos nove anos, que mergulhei de cabeça no maior espetáculo esportivo do planeta. Lembro perfeitamente que, após a famigerada derrota para a Argentina de Maradona (também num domingo), fui para a rua dividir a frustração com a molecada, a terapia que todos faziam na época. Quando entramos na casa de um dos amigos, topamos com os pais dele tentando consolá-lo. O garoto estava aos prantos, em situação emocional precária. Respeitei a dor do amiguinho (que por muito menos já tinha me zoado em outras ocasiões), mas por dentro me fiz uma pergunta: por que eu não estava sentindo aquela mesma agonia?
Nas Copas seguintes, o futebol me deixou mal acostumado. Foram três finais seguidas e dois títulos mundiais. Vivi um título improvável ainda criança, uma derrota dolorosa no final da adolescência e novamente um triunfo no início da vida adulta que me fez acreditar no pior dos autoenganos: o de que, de quatro em quatro anos, teria o doce sabor da vitória garantido, não importasse o adversário. Que ilusão!
Desde então, coleciono um inventário de quedas e eliminações capazes de fazer o mais fervoroso torcedor desistir de se empolgar com o torneio e se afastar, em definitivo, daquela criança que contava os dias para a bola rolar. Infelizmente acabei de experimentar mais um revés.
Os analistas de plantão logo resgataram o fantasma de 1990, já que aquela tinha sido a nossa última eliminação nas oitavas de final. Mas, pelo que me recordo daquele domingo, nós jogamos a nossa melhor partida. O gosto amargo veio justamente porque tocamos a classificação com a ponta dos dedos; houve bola na trave, chances desperdiçadas e a nítida sensação de que podíamos derrubar o nosso maior rival.
Agora, em 2026, o roteiro foi o avesso. Contra a Noruega, voltamos a jogar mal e faltaram as soluções que havíamos encontrado diante do Japão. Confesso que subestimei a estratégia dos nórdicos. Eles passaram boa parte do tempo trocando passes laterais e exibindo uma vulnerabilidade imensa sempre que acelerávamos a jogada. O problema é que não aproveitamos as brechas e, pior, aceitamos a valsa lenta proposta por eles. Haaland furou e bateu de canela em duas ou três oportunidades, mas um finalizador desse calibre não costuma desperdiçar desse jeito. Quando teve espaço, guardou. Fomos passivos na marcação e nos faltou aquela intensidade de quem joga a vida. Para completar, as mexidas de Carlo Ancelotti não surtiram efeito (pelo contrário, desorganizaram o que estava “funcionando”) e sucumbimos de vez.
Apontar culpados no tribunal do dia seguinte é um vício nacional, mas é fato que o futebol de alto nível pune os desperdícios. Em jogos decisivos tudo se resolve no detalhe.
Durante o jogo, trocando mensagens com alguns amigos, tentei ser o otimista do copo meio cheio, insinuando que a Noruega errava muito e que bastaria um capricho para o gol sair. Tive que dar o braço a torcer depois que o pesadelo se consumou.
Minha relação com o futebol, hoje, é de puro entretenimento. Não deposito no gramado as minhas frustrações cotidianas, nem uso a TV como para-raios para xingar ou extravasar minhas mazelas. É uma blindagem forjada nas derrotas e no exercício de paciência que tem sido torcer pelo Corinthians ultimamente. Vencer é maravilhoso, mas perder faz parte do processo. Alguns desses amigos reclamaram do meu pachequismo e lamentaram ver os filhos chorando pela eliminação. Ao contrário do “meu eu” criança lá de 1990, não achei o choro um exagero. Argumentei que era pedagógico.
Desde menino vejo os mesmos engenheiros de obra pronta falarem após as derrotas e tenho a impressão de que nada muda. Sempre teremos ótimos jogadores, uma desorganização crônica nos bastidores e resultados que oscilam entre a glória total e o vexame. Faz tempo que não temos enfrentamento contra os europeus nas fases eliminatórias das Copas. O que isso prova? O mesmo que a derrota de 1990 nos ensinou: no futebol, é preciso cuidar obsessivamente dos detalhes, mas, ainda assim, sempre precisaremos de uma pitada de sorte, do brilho de um craque durante aquele mês e do imponderável. Não há uma lógica exata.
Torcer ou não torcer, eis a questão
Toda Copa do Mundo nos coloca diante de um clássico dilema de sobrevivência emocional: torcer pelos azarões para pavimentar um caminho teoricamente mais suave ou secá-los em nome dos gigantes, garantindo que o torneio guarde o peso da sua história?
Vimos o planeta se comover com a epopeia de Cabo Verde, um sopro de poesia que lutou bravamente até o último minuto contra a Argentina, mostrando que o futebol ainda permite o sonho. Em contrapartida, testemunhamos o antijogo amarrado do Paraguai, aquela conhecida catimba sulamericana que transforma o relógio em inimigo e nos faz questionar o merecimento do espetáculo. Queríamos o caminho fácil ou a Copa histórica? Continuamos torcendo pelos protagonistas fazendo história? Talvez o surgimento de um campeão inédito ou um craque improvável?
A ironia é que, agora que a nossa seleção arrumou as malas mais cedo e nos deixou órfãos de pátria com chuteiras, somos obrigados a recalcular a rota da nossa torcida. Sem o Brasil, a lógica ruiu por completo. Resta-nos adotar uma pátria de aluguel pelos próximos dias e escolher por qual outra ilusão sofreremos até a grande final, torcendo, quem sabe, apenas pelo prazer de ver o caos se estabelecendo por completo.



