Emocionados Futebol Clube

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Foto: Annegret Hilse / REUTERS

Devido às circunstâncias, assisti à primeira participação da nossa seleção na inédita fase de dezesseis avos de final de uma Copa acompanhado de uns vinte marmanjos. O clima de desconfiança pairava muito antes do apito inicial. Ninguém naquela sala estava seguro de que a vitória viria; havia um medo coletivo da derrota, uma tensão incômoda que, na imaginação de muitos ali, fazia o pragmático time do Japão parecer a Holanda de 1974.

Fora a alta concentração de testosterona, essas ocasiões transbordam uma energia muito específica: a do homenzinho que acredita, com toda a convicção de sua intocável autoestima, que conhece como ninguém a arte da bola. Era um festival de palpites infalíveis: “tira o Paquetá!”; “coloca o Neymar!”; “o Casemiro já era, não serve mais pra nada!”. Quando o Japão abriu o placar, concretizando o nosso pior pesadelo, a culpa recaiu imediatamente sobre um desafortunado que ousou gritar “agora vai!” bem no instante em que o Danilo partiu com a bola dominada — apenas para entregá-la caprichosamente no pé do meia Kaishu Sano, ao melhor estilo Toninho Cerezo na tragédia do Sarriá.

Antes do empate, confesso, temi o pior. Meus pensamentos viajantes foram parar lá na primeira semana das minhas férias, antecipando o cenário catastrófico de assistir às oitavas de final sem o Brasil. Onde eu seria obrigado a caçar outra fonte de entretenimento para preencher o tempo livre, enquanto lidava com a inevitável inveja ao ver a alegria alheia destoando do meu luto futebolístico. Mas o futebol tem seus caprichos. Para o bem da sanidade mental daquele grupo, o segundo tempo nos devolveu a alegria e a esperança, transformando o fantasma da eliminação em  alívio catártico.

Novamente vou lançar mão de um clichê, porque, como já escrevi por aqui raro leitor,  é impossível falar de bola sem esbarrar neles: por mais que não haja mais bobos no futebol (e esta Copa inchada está aí para provar), a tradição ainda joga. Virar um placar da forma como viramos, dominando as ações na etapa final, só foi possível porque nossa camisa entorta varal. O inverso dificilmente aconteceria. Desde o meu primeiro texto, avisei: não temos um time pronto. Se chegarmos longe, será na base da garra! Não vamos atropelar ninguém, mas emoção não vai faltar.

Felizmente, desta vez não teve tragédia. Já não tenho mais o elã da juventude para achar graça em torcer coletivamente. Nessa altura da vida, meu lado certo do sofá, meu controle remoto e o silêncio da minha mente “barulhenta” são ótimas companhias. Mas o destino me empurrou para aquela sala. Vi um comentário do PVC (o jornalista Paulo Vinícius Coelho) lembrando que, em nenhum outro lugar do mundo, as pessoas se mobilizam para acompanhar sua seleção como aqui. Se o jogo é em horário comercial, ninguém na Espanha larga o expediente e nenhum banco fecha mais cedo em Portugal para ver o Cristiano Ronaldo. Essa é uma prática tupiniquim.

Quando o Martinelli fez aquela bola morrer mansamente no fundo da rede do goleiro Suzuki, depois de beijar caprichosamente a trave antes de entrar, a sala explodiu em uníssono. Um daqueles homenzinhos, o maior crítico do esquema tático cinco minutos antes, parou na minha frente com os braços abertos, os olhos marejados, como se faltasse apenas o meu abraço para validar o sentimento que transbordava dele. Foram uns vinte segundos em que o cético rabugento do sofá e o torcedor fanático, se fundiram num abraço apertado e fraterno. Passado o susto, acho que vou guardar o capítulo “Brasil 2×1 Japão” com um inesperado e profundo carinho.

Sobre protagonistas, zebras e o peso da camisa

Agora que sobrevivemos à primeira degola do mata-mata, o tabuleiro desta Copa do Mundo começa a desenhar seus verdadeiros vilões e heróis. Se os deuses do futebol mantiverem a lógica (uma exigência excessiva para um torneio que já mandou embora mais cedo a tetracampeã Alemanha e a admirada Holanda), o caminho até a taça será um teste para cardíacos. É a tal “Copa dos protagonistas”, onde as camisas pesadas tentam se impor diante de um bando de intrusos dispostos a estragar a festa dos favoritos.

Até aqui, quem realmente jogou bola e justificou o status de potência foram a França e a Argentina. Os franceses continuam com aquela arrogância tática vertical e avassaladora, enquanto os nossos vizinhos desfrutam de uma maturidade competitiva que dá raiva de assistir. Mas nada que um contra-ataque bem encaixado não dilua. Que o digam os alemães, que entraram em campo achando que a história se escreve sozinha e foram engolidos pela ironia de uma autêntica retranca sul-americana.

Nós seguimos vivos, sem o brilhantismo dos nossos rivais históricos, mas com aquela mística inegável de quem sabe sofrer. Em um torneio de tiro curto, nem sempre quem levanta a taça é o time que joga o futebol mais bonito e uma coisa é certa nos próximos noventa minutos (ou mais) que passaremos diante da nossa seleção: emoção não vai faltar!

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