Passado o período de “monomania eleitoral”, entre mortos e feridos, percebi que passei por essa batalha me esquivando das balas em meio ao tiroteio. “Quem me conhece sabe” que não fiz isso por falta de lado, mas talvez por uma “bundamolice” disfarçada de diplomacia… Sigo ao meu modo, em total identificação com a ideia do Jorge Drexler de que a verdadeira revolução se dá pela coragem de amar e manter o diálogo. Também há transgressão na conciliação; a diferença é que ao contrário de uma transgressão afrontosa, ela exige coerência e constância, algo cada vez mais escasso em tempos de imediatismo.
Sem contar que sou pouco afeito ao confronto: sou o famoso “zero tretas”. Definitivamente não gasto tempo tentando demover meus amiguinhos de suas ideias, mas fico bastante envaidecido quando percebo que sou poupado de alguns embates graças às minhas atitudes. Muitas vezes, um posicionamento é mais eficaz pela ação do que pelo discurso.
Há pouco tempo me peguei empolgadíssimo após assistir “A Vida de Chuck”, filme dirigido por Mike Flanagan e baseado num conto de Stephen King. E a minha empolgação não era para menos. A obra é uma ode poética ao milagre de estarmos vivos, em que a morte de uma pessoa comum significa o fim de um universo inteiro. Flanagan nos lembra do absurdo que é gastarmos energia com miudezas enquanto ignoramos que somos feitos de múltiplos mundos, construídos por cada encontro, memória e afeto que acumulamos. A cena da dança é um momento de pura celebração à existência! De frente para a tela, foi como se eu também fizesse parte daquela multidão e estivesse ali na calçada, dançando junto.
Mas aí li críticas severas à estrutura do filme e aos seus supostos clichês melodramáticos — questões que a minha empolgação simplesmente ignorou. Quando comentei o que vi com dois amigos, a reação foi na mesma linha: reclamaram que a história era fora de ordem e, pior, que não havia explicação de como ou por que aquilo tudo estava acontecendo. Não sei como é aí com você, raro leitor, mas esse tipo de argumento me afeta, porque pertence a um universo com o qual não me identifico: aquele em que tudo precisa ter uma razão explícita, como se a vida viesse com manual de instruções…
Nessas horas sempre me lembro do já clássico vídeo do professor Clóvis de Barros, no qual ele relata a importância de ler algo que não nos é familiar por uma questão de “brio”! Mesmo que depois admitamos não ter entendido nada e aceitemos ser, sim, um tanto “tosquinhos”. Meus amigos críticos talvez gostassem mais se o Chuck do título fosse o saudoso Chuck Norris. Mas tudo bem. Cada qual com seus universos… A diplomacia me fez sucumbir.
Em outro momento, passadas as eleições, eu estava em sala com três alunas, naquele instante em que a conversa já não diz respeito à aula. Elas comentavam sobre os métodos, digamos, ortodoxos de alguns colegas professores e eu, por questão de ética profissional, mantive o silêncio. Uma delas me poupou das críticas (talvez pela minha presença) e, num movimento autocentrado, comentei que era favorável que a didática se encaixasse ao universo do aluno, e não o contrário. Elas concordaram e quase me aplaudiram. Em seguida, quando o assunto já havia se esgotado, uma delas usou a famosa frase: “O oprimido vira opressor!”. Foi a deixa para a colega emendar: “Isso é Paulo Freire, credo!”. E a outra arrematar: “Credo mesmo, ele é uma farsa!”.
Novamente a diplomacia me fez sucumbir… A meu favor, guardo as palavras de Walt Whitman em seu poema “Canto de Mim Mesmo”, citado no filme que meus amigos não gostaram: “Eu me contradigo? Pois muito bem, eu me contradigo. Sou vasto, contenho multidões!”.




