Foto: Juan Mabromata / AFP
Quando esta Copa do Mundo terminar, o que lembraremos dela? Peço desculpas ao raro leitor que já abandonou o evento devido à eliminação do Brasil, ou àqueles que são indiferentes a ele, mas é impossível não reconhecer que, no mínimo, teremos muitas histórias para contar quando os Ravis e as Maitês nos perguntarem sobre o primeiro torneio com 48 times.
Poderemos falar sobre as últimas participações de craques como Modric, James Rodríguez, Neuer, Cristiano Ronaldo, Ochoa, De Bruyne, Neymar (será?) e Messi; contar sobre o protagonismo que alguns desses ídolos tiveram; ou lembrar a exuberância de uma seleção francesa que, por sua vez, sucumbiu diante da coletividade espanhola. Lembraremos de nossa apatia diante dos noruegueses (e daqueles 34% de posse de bola), do Haaland e sua “remada”, do Bellingham cantando Wonderwall, do goleiro Vozinha, e da raiva que passamos (ou não) com esse time da Argentina…
Serei repetitivo: não importa se você, raro leitor, já deu adeus à Copa ou se é daqueles que assistem aos jogos apenas para secar nossos rivais históricos; não tem como ficar indiferente ao que a seleção argentina fez neste torneio. Independentemente do que aconteça na final de domingo.
Em sua coluna na Folha, João Pereira Coutinho traduz com precisão o que essa seleção provoca no espectador ao classificar o futebol deles como um espetáculo que “desafia nossa compreensão”. O escritor argumenta que o verdadeiro incômodo com os argentinos não é tático, mas psicológico: nós odiamos a ambiguidade e o caos, preferindo a lógica fria da previsibilidade ao drama do imponderável. Ao se recusar a seguir um roteiro linear, essa equipe de viradas dramáticas e sobrevivências milagrosas já fez história, despertando um misto de repulsa e fascínio em quem assiste.
Coutinho também aponta que a mente humana tem a necessidade biológica de fechar “arcos narrativos” claros e confortáveis. Nós aceitamos bem dois cenários em relação aos rivais: a queda redentora, quando um gigante cai rápido e de forma trágica (se a Argentina caísse cedo, a história estaria “fechada”); ou o rolo compressor, quando uma campeã incontestável atropela todo mundo, provando sua superioridade clara — ironicamente, nesta Copa, a França acabou flertando com as duas narrativas. O que não aceitamos é o meio-termo, a ambiguidade e o sofrimento. Queremos a segurança da previsibilidade, mas a Argentina nos entrega “caos, colapso, genialidade e vitórias arrancadas na base da dor”.
Outro componente importante que a saga “alviceleste” desperta em nós é a inveja. Duvido que alguém que tenha acompanhado minimamente a Copa não sinta o desejo de ver seu próprio time ou seleção se comportando como os nossos “hermanos”: lutando até o fim, com alma, identificados com a torcida e cientes do peso histórico daquela disputa. Sentir inveja é humano e inevitável, mas nossa busca obsessiva por respostas rápidas e explicações fáceis para situações complexas (principalmente sobre o que sentimos) revela o quanto nos tornamos reféns de uma urgência contemporânea de catalogar tudo.
Sobre o jogo contra a Inglaterra, é possível cravar algumas certezas usando velhos clichês. Aliás, eles existem justamente para nos trazer esse conforto. Podemos recorrer ao clássico “o medo de perder tira a vontade de ganhar”, do professor Luxemburgo — afinal, o Thomas Tuchel, técnico alemão da seleção inglesa, resolveu recuar e segurar o placar faltando mais da metade do segundo tempo. Ou, se preferirmos um lema para os argentinos, o eterno “o jogo só termina quando acaba”.
Ironias à parte, diante de um fenômeno tão visceral, nossa mente, viciada em certezas instantâneas, tenta domesticar o caos com fórmulas prontas. Ao fugirmos da incômoda ambiguidade que a Argentina escancara, caímos na armadilha de respostas rasas e de um comodismo que dispensa a autocrítica. Preferimos o conforto anestésico de uma explicação qualquer à beleza desconfortável de admitir que, como escreveu Coutinho, “o futebol é como a vida: questão de sorte, astúcia e milagre”. A final de domingo tem tudo para ser um grande espetáculo: a previsibilidade confortável dos espanhóis contra o caos e a incerteza dos argentinos.
Há coisas que simplesmente não precisam de explicação; ficam na conta dos mistérios da vida e pronto. Sem esse mistério, perdemos nossa própria complexidade e viramos todos “idiotas da objetividade”. Nelson Rodrigues nunca foi tão necessário!





