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O período de Carnaval costuma dividir a humanidade entre os que se jogam na folia e os que preferem se refugiar em outras atividades. Para os refugiados talvez o verbo “preferir” não seja o mais adequado, pois aposto que entre eles, muitos gostariam de cair no samba, mas por algum impedimento não o fazem. Como seres livres, nossas escolhas demandam responsabilidades, certo?

Ter um momento onde é possível escapar das obrigações cotidianas é um dos maiores prazeres da vida, seja no bloco de Carnaval mais badalado ou no sofá da sala assistindo um bom filme. Toda alegria é um presente, especialmente em períodos de turbulência! Talvez por isso esperamos com tamanha ansiedade a chegada desses momentos.

O problema é quando tal expectativa não antecede apenas períodos especiais, tornando-se algo comum e cada vez maior. Quando nossa rotina vira um fardo tão pesado que inventamos um verbo – o grotesco “sextou” –  para atenuar nossa sensação de tédio. É como se cumpríssemos tarefas enfadonhas para obter como prêmio, um ingresso com data e hora marcada com a felicidade.

Esse cenário frequentemente é naturalizado e até confundido com um estilo de vida moderno e “vencedor”. Mas não se engane, seus efeitos são silenciosos! Numa sociedade compulsiva, ansiosa e ávida por soluções rápidas, só nos damos conta do problema quando nos deparamos com crises de ansiedade ou exaustão física e emocional.

O filósofo e escritor Mario Sérgio Cortella em seu livro “Por que fazemos o que fazemos?” afirma que rotina não é monotonia. A rotina é necessária, pode ajudar no uso inteligente do tempo e até na eficiência de uma atividade. O que causa o enfado em relação ao cotidiano é a monotonia, que é responsável pela morte da motivação. Se nosso dia de trabalho, estudo ou de qualquer atividade que façamos começa com um alto nível de tristeza, é preciso dar novos significados para as razões pelas quais estamos fazendo aquilo.

Olhar o cotidiano sem o peso das obrigações não é tarefa simples. Mas há sempre a possibilidade de decretarmos “pílulas de feriados” em meio às árduas atividades que cumprimos. Podemos aproveitar os momentos dos cafés, almoços, encontros, conversas no caminho, atividades após o trabalho e afins. Pois no fim das contas, a vida acontece nas pequenas coisas do dia-a-dia. É no ordinário que ela se desenrola, enquanto esperamos o extraordinário acontecer na próxima sexta-feira.

PS: O belíssimo filme “Roma”, de Alfonso Cuarón, explora de forma sensível e humana a ação do cotidiano na vida dos seus personagens. É uma ótima pedida para aqueles que curtem um feriado no sofá da sala.

 

Andrey Cardoso

Psicólogo, especialista em Dependência Química e Psicologia do Esporte

email: andreycs13@gmail.com


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