As dores e delícias das festas de fim de ano

É véspera de Natal ou Ano Novo, a casa está cheia! Ainda faltam duas horas para servirem a ceia e as crianças reclamam de fome. Sua tia não para de brigar com o marido que toma num gole só a oitava lata de cerveja. Os primos adolescentes, alheios a tudo ao redor, só desviam a atenção de seus smartphones para melhorar a última selfie que não ficou boa. O calor, a música alta e aquela tia avó gritando que você engordou desde a última vez que te viu, passa longe de ser o maior dos problemas… Ainda falta chegar o tio sem noção do “é pavê ou pacumê?”, que esse ano resolveu trazer aquele primo de segundo grau, mensageiro da discórdia, que foi expulso do grupo da família no WhatsApp depois de mandar novecentas mensagens do seu candidato político.

Apesar do cenário caótico, as festas de fim de ano podem ser divertidas e não existe família perfeita nem jeito certo de celebrar tais festejos. Se tudo correr bem, o verdadeiro sentido de confraternização aparece junto com a uva passa no arroz. E fica tudo bem!

Se não for o caso e a cada ano você promete que será o último que frequenta a festa da família, talvez seja um bom momento de perceber qual a sua contribuição para este cenário e o motivo do seu descontentamento. A internet tem material farto com dicas para evitar confusão nas festas de fim de ano, não é esse o motivo deste texto.

Sem a menor pretensão de direcionar ou orientar, arrisco dizer que cada um sabe, através de suas experiências de afeto, quais as vantagens e recompensas em participar de reuniões em que alguns conflitos se atenuam. Aliás, imaginar que nunca haverá conflitos numa família é uma idealização quase infantil. Mas há sempre a possibilidade de praticarmos a assertividade e principalmente mantermos nossa integridade física e emocional diante daquilo que não nos faz bem.

Apesar de não tratar especificamente deste assunto, o stand up “Nanette” da comediante australiana Hannah Gadsby (disponível no Netflix), para mim, toca num ponto fundamental em relação às nossas escolhas para mantermos nossa saúde emocional. Em uma parte não muito engraçada, porém não menos relevante, ela fala do quanto costumamos cultuar gênios que sofriam inúmeras perdas emocionais para criarem suas obras ou se manterem funcionais aos olhos da sociedade. Geralmente dizemos que são pessoas a frente do seu tempo, quando na verdade estavam sofrendo emocionalmente e podiam se tratar.

Voltando às festas de fim de ano, acho que podemos usar a mesma lógica exposta no ótimo “Nanette”. Se me faz sofrer ou compromete minha saúde mental, é melhor ficar em casa ou participar de algo que não me prejudique emocionalmente. Exige esforço, clareza e maturidade, mas essa época do ano também remete a desafios.

Que comecem as festas! E que possamos aproveita-las da melhor maneira possível! Feliz Natal e um excelente ano novo!

Andrey Cardoso

Psicólogo, especialista em Dependência Química e Psicologia do Esporte

email: andreycs13@gmail.com


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